Esta é a 6.ª edição do nosso relatório de progresso no âmbito da Forest Positive Coalition of Action do The Consumer Goods Forum. Este relatório deve ser lido de forma complementar à informação constante no Relatório e Contas de 2025 do Grupo Jerónimo Martins sobre as práticas de combate à desflorestação.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a principal causa da destruição de florestas tropicais é a expansão das atividades agrícolas. A desflorestação e a conversão do uso do solo continuam a ser os fatores que mais contribuem para a perda de áreas florestais e de biodiversidade. Enquanto retalhistas alimentares, reconhecemos que grande parte das nossas cadeias de abastecimento depende de matérias-primas com origem agrícola, direta ou indiretamente ligadas às florestas e que a proteção dos ecossistemas terrestres, sobretudo aqueles com Alto Valor de Conservação (AVC), contribui para o sequestro de carbono e para regular o clima.
Por estes motivos, desde 2019 que fazemos parte da Forest Positive Coalition of Action (FPCoA), iniciativa do The Consumer Goods Forum, com o objetivo de reforçar a gestão responsável das matérias‑primas mais associadas à desflorestação. Este compromisso abrange os produtos das nossas Marcas Próprias e os artigos perecíveis que utilizam óleo de palma, papel e madeira, soja ou carne bovina na sua composição. A coligação atua como uma plataforma de mobilização para que as empresas implementem medidas coordenadas e individuais que visem eliminar a desflorestação e a conversão de ecossistemas AVC nas cadeias de abastecimento destas quatro commodities. Paralelamente, esta coligação promove a adoção de práticas de gestão sustentável, conservação e recuperação das florestas, garantindo que estes esforços são alinhados com o respeito pelos direitos humanos.
Compromisso com o combate à desflorestação distinguido em 2025
Em 2025, atingimos um importante marco na avaliação e reconhecimento independentes das boas práticas de sustentabilidade e de cidadania corporativa. Fomos distinguidos pelo CDP (Disclosure Insight Action) com a classificação máxima (A) na gestão das commodities associadas ao risco de desflorestação (programa Forests), nomeadamente óleo de palma, soja, carne bovina e papel/madeira.
É a primeira vez a nível global que um retalhista alimentar multinacional alcança este nível de distinção, o que atesta a robustez e a consistência dos nossos compromissos e ações nesta matéria.
A adesão à FPCoA é parte da nossa Estratégia de Sustentabilidade, sendo suportada pelos seguintes elementos, disponíveis no website do Grupo:
Política de Compras Sustentáveis – visa a incorporação de preocupações éticas e ambientais nas nossas cadeias de abastecimento de forma a mitigar, de forma gradual e sustentada, os impactos negativos das nossas atividades.
Política Ambiental – promove a melhoria contínua do desempenho ambiental das nossas atividades, produtos, serviços e cadeias de abastecimento, tendo como prioridades o combate às alterações climáticas e a proteção dos recursos hídricos, a preservação da biodiversidade e a aceleração da transição para uma economia circular.
Código de Conduta dos Fornecedores – estabelece os princípios e valores éticos que entendemos que os nossos fornecedores e parceiros comerciais devem partilhar connosco, nomeadamente, o empenho em desenvolver todos os esforços destinados a promover a manutenção dos serviços dos ecossistemas, a utilização racional dos recursos naturais e biológicos e a proteção dos habitats e espécies nas áreas geográficas onde este opera ou tem influência, implementando todas as medidas de conservação necessárias quer nos seus processos de produção quer no controlo e seleção dos seus fornecedores.
Comissão de Ética – órgão responsável por acompanhar a divulgação e o cumprimento das normas e princípios que constam do Código de Conduta e da Política Anticorrupção do Grupo Jerónimo Martins em todas as sociedades que o integram, assim como pelo respetivo tratamento de quaisquer potenciais incumprimentos reportados.
Science Based Targets – As nossas metas de redução de gases com efeito de estufa (GEE), tanto a curto como a longo prazo, foram aprovadas pela Science Based Targets Initiative (SBTi) em 2024. O nosso plano para atingir emissões líquidas zero integra metas quantificadas para as emissões e remoções associadas à agricultura, florestas e uso do solo (FLAG), ao longo de toda a cadeia de valor, incluindo as associadas à produção das principais commodities agrícolas com risco de desflorestação incorporadas nas nossas Marcas Próprias e perecíveis. Este plano inclui também o nosso compromisso de zero desflorestação e conversão de ecossistemas AVC. Os compromissos e ações estão detalhados no nosso Plano de Transição Climática.
Através da definição de planos de ação específicos, a FPCoA centra a sua atuação em quatro commodities – óleo de palma, soja, papel/madeira e carne bovina –, igualmente estratégicas para os nossos negócios. Para cada uma destas matérias-primas são definidos roadmaps que procuram:
garantir que os produtos de Marca Própria e perecíveis seguem os princípios de sustentabilidade ambiental e social da coligação;
incentivar os principais traders das matérias-primas e os fornecedores das cadeias de abastecimento dos membros da Coligação a assumir os mesmos objetivos nas suas cadeias;
contribuir para a preservação de ecossistemas nas principais áreas de produção através de iniciativas multi-stakeholder;
definir indicadores específicos de progresso e divulgá-los publicamente.
Do compromisso à ação: foco nos ingredientes
Embora tenhamos assumido o compromisso de assegurar que, até ao final de 2025, o óleo de palma, a soja, o papel/madeira e a carne bovina presentes nos nossos produtos de Marca Própria e perecíveis fossem livres de desflorestação e conversão de ecossistemas (DCF – Deforestation and Conversion Free), reconhecemos que este objetivo ainda não foi plenamente alcançado, apesar dos progressos realizados em estreita colaboração com os nossos fornecedores. Este objetivo é particularmente desafiante em cadeias de abastecimento complexas onde estes ingredientes estão presentes, como o óleo de palma existente na margarina e/ou a soja utilizada na alimentação animal para produzir carne — ambos usados numa lasanha pronta a consumir. Neste contexto, estamos a alinhar os próximos passos com o FPCoA, reconhecendo que o cumprimento integral de DCF exige um percurso contínuo e estruturado, assente na rastreabilidade, monitorização, compras responsáveis e apoio aos produtores – fatores que permanecem essenciais para impulsionar progressos mensuráveis para além de 2025.
Em paralelo, procuramos seguir as orientações da Accountability Framework initiative, uma iniciativa colaborativa que reúne organizações ambientais e sociais com o objetivo de promover cadeias de abastecimento éticas e livres de desflorestação. Os seus princípios enfatizam que, mesmo quando as metas propostas não são plenamente atingidas, a prioridade deve ser acelerar o progresso através do reforço da rastreabilidade, do envolvimento dos fornecedores e do investimento em paisagens críticas – áreas nas quais continuamos a desenvolver o nosso trabalho.
Ao contrário de setores com cadeias de abastecimento mais simples e relativamente concentradas, as nossas operações – como é típico no retalho alimentar – dependem de cadeias de abastecimento longas, fragmentadas e multinível, particularmente no caso de produtos não alimentares e alimentos processados. Nestes contextos complexos, a rastreabilidade pode ser especialmente desafiante. É o caso, por exemplo, da soja utilizada na alimentação animal (como rações para galinhas poedeiras cujos ovos são posteriormente utilizados em produtos vendidos nas nossas lojas), ou dos derivados de óleo de palma incorporados de forma indireta através de ingredientes processados, muitas vezes enquanto componentes de outros ingredientes (por exemplo, óleo de palma em margarinas utilizadas em produtos de padaria). De igual modo, determinados subprodutos apresentam desafios adicionais, dado que a sua rastreabilidade até à origem é altamente complexa. Nestes casos, assegurar o pleno cumprimento dos critérios DCF torna‑se significativamente mais exigente.
Adicionalmente, a limitada disponibilidade no mercado de volumes fisicamente certificados (“Identity Preserved” e “Segregated”) para óleo de palma e soja, bem como as limitações na disponibilidade de certificação no caso da carne bovina, têm condicionado a nossa capacidade de reduzir a distância entre as nossas operações e a produção destas matérias‑primas. Esta realidade cria um desequilíbrio na capacidade de assegurar o cumprimento integral dos critérios DCF ao mesmo ritmo de indústrias com uma exposição mais direta à produção primária, o que reforça igualmente a importância da ação coletiva para impulsionar o progresso nestas áreas.
Apesar destas condicionantes, mantemos o compromisso de mapear a presença de ingredientes com risco de desflorestação nos nossos produtos de Marca Própria e perecíveis, recolhendo informação junto dos fornecedores sobre a origem e certificação de sustentabilidade, bem como sobre as respetivas políticas de combate à perda de floresta. Simultaneamente, reconhecemos que a verificação integral do estatuto DCF – particularmente no caso de matérias‑primas inseridas em cadeias de abastecimento longas e com múltiplas etapas – exige um esforço conjunto a nível setorial. Tal implica uma maior transparência a montante, bem como o desenvolvimento de soluções tecnológicas que permitam alcançar este objetivo de forma robusta, verificável, eficaz e eficiente.
Seis anos de progresso no combate à desflorestação com a FPCoA
Desde 2020, temos vindo a reforçar de forma consistente o nosso compromisso no combate à desflorestação, com foco em quatro commodities prioritárias: óleo de palma, soja, papel/madeira e carne bovina. O nosso objetivo tem sido garantir cadeias de abastecimento mais responsáveis, assentes na rastreabilidade, certificação e colaboração com fornecedores.
Óleo de palma
Reforçámos a rastreabilidade do óleo de palma, com particular destaque para os progressos alcançados na Colômbia, onde assegurámos a rastreabilidade até ao nível da plantação para 94% dos volumes adquiridos até 2025. Nas nossas operações europeias, alcançámos 100% de óleo de palma certificado RSPO nos produtos de Marca Própria e perecíveis.
Soja
Aumentámos a rastreabilidade na produção de soja, especialmente no consumo indireto, nomeadamente através da alimentação animal. Como resultado, a proporção de soja de origem desconhecida diminuiu de 30% em 2020 para 3% em 2025.
Papel e madeira
Reforçámos a incorporação de fibras virgens certificadas FSC® e PEFC nos nossos produtos e embalagens, passando de 65% em 2020 para 92% em 2025.
Carne bovina
Assegurámos a rastreabilidade até ao nível do matadouro para todas as origens de risco e reforçámos o controlo sobre fornecedores localizados em regiões associadas à desflorestação.
Monitorização e gestão de reclamações
Possuímos um mecanismo de gestão de reclamações consolidado, assente no nosso Código de Conduta, na Política de Comunicação de Irregularidades (Whistleblowing Policy) e no Código de Conduta de Fornecedores. Em conjunto, estes referenciais estabelecem os princípios e procedimentos para a receção e tratamento de reclamações em matérias relacionadas com a sustentabilidade. Esta arquitetura é implementada através de uma Comissão de Ética independente e de Gabinetes de Ética locais, que funcionam como órgãos centrais na gestão das participações submetidas através de múltiplos canais, incluindo uma plataforma dedicada de denúncia confidencial (e anónima), serviços de apoio ao cliente e o Provedoria do Cliente.
Todas as reclamações são geridas através de um processo estruturado, definido na nossa Política de Comunicação de Irregularidades que abrange a submissão, o registo seguro, a investigação e a resolução. Este processo é orientado por rigorosas salvaguardas de confidencialidade, independência e não retaliação, garantindo a proteção dos denunciantes e a integridade do sistema. O mecanismo de gestão de reclamações encontra‑se plenamente integrado no nosso modelo global de gestão de risco e de diligência devida em sustentabilidade, assegurando que as preocupações levantadas pelas partes interessadas contribuem diretamente para a identificação, mitigação e reparação de impactos ao longo da cadeia de valor.
A nossa arquitetura de gestão de reclamações, baseada em políticas e suportada por múltiplos canais, garante que preocupações ambientais — incluindo potenciais questões relacionadas com a desflorestação — são sistematicamente identificadas e tratadas segundo uma lógica consistente de monitorização e resposta, alinhada com os princípios fundamentais de acessibilidade, rastreabilidade, capacidade de resposta e melhoria contínua.
Neste contexto, qualquer alegação potencialmente associada à nossa cadeia de valor pode ser reportada, acompanhada, investigada e objeto de medidas corretivas através dos mesmos mecanismos de governação, escalação e ação corretiva definidos nas nossas políticas. Isto assegura um mecanismo centralizado e padronizado, aplicável a todas as matérias‑primas e geografias, que apoia a integração com os processos de relacionamento com fornecedores e de diligência devida, promovendo simultaneamente a aprendizagem contínua. Em 2025, não foram registados casos de reclamações relacionadas com desflorestação.
No que respeita à cadeia de abastecimento, somos também membros da Human Rights Coalition do The Consumer Goods Forum (CGF). Esta iniciativa visa assegurar que, até ao final de 2025, as empresas membros têm as suas próprias operações abrangidas por sistemas de diligência devida destinados a identificar, prevenir e mitigar riscos de violações de direitos humanos.
Direitos humanos e laborais na cadeia de abastecimento
Relativamente à nossa cadeia de abastecimento, e em complemento das disposições previstas no Código de Conduta do Grupo Jerónimo Martins, três documentos centrais orientam a nossa abordagem: o Código de Conduta de Fornecedores, a Política de Compras Sustentáveis e a Política Anticorrupção.
A seleção de fornecedores baseia-se num conjunto de critérios, incluindo qualidade, inovação, preço, capacidade de fornecimento, desempenho, confiança, continuidade e sustentabilidade a longo prazo. No âmbito da Política de Compras Sustentáveis, reservamo-nos o direito de, de forma imediata e unilateral, cessar relações comerciais com fornecedores sempre que existam evidências de que estes, ou os seus próprios fornecedores, adotam práticas que violem os direitos humanos, das crianças ou laborais, ou não integrem considerações éticas e ambientais nas suas atividades.
Em todas as Companhias do Grupo, os processos de compras exigem que os fornecedores reconheçam e se comprometam com os princípios estabelecidos na Política de Compras Sustentáveis, no Código de Conduta de Fornecedores e na Política Anticorrupção. Os fornecedores devem assegurar práticas salariais justas e promover condições de trabalho seguras, incluindo a disponibilização de equipamentos de combate a incêndios, equipamentos de proteção individual, saídas de emergência, seguro de acidentes de trabalho e assistência médica para os colaboradores. Adicionalmente, o Grupo realiza auditorias sociais a fornecedores e promove formação nesta área. Em 2025, foram avaliados 203 potenciais novos fornecedores.
O nosso programa de auditorias sociais foi lançado em 2019, abrangendo fornecedores de Marca Própria e de perecíveis, com base em critérios desenvolvidos a partir do trabalho da Sustainable Supply Chain Initiative, também integrada no CGF. Para os fornecedores de produção primária, estes critérios incluem a proteção das populações locais e indígenas, nomeadamente:
os fornecedores devem demonstrar o acesso legítimo ao uso da terra e à água;
em caso de transferência de propriedade de terrenos, esta deve ter sido precedida de consulta e de consentimento livre, prévio e informado (FPIC);
em caso de conflito relativo à propriedade da terra ou ao acesso à água, os fornecedores devem evidenciar o envolvimento das partes necessárias para a sua resolução;
prevenir, remediar ou mitigar impactos negativos decorrentes de atividades em áreas protegidas e de elevado valor de conservação, dentro ou fora dos limites de produção, que possam afetar a subsistência de populações locais ou indígenas;
adotar medidas adequadas para manter a qualidade e a acessibilidade da água superficial e subterrânea para as populações locais e/ou indígenas.