A nossa ambição climática
A identificação, a avaliação e a gestão de riscos e oportunidades climáticas são eixos centrais do nosso Plano de Transição Climática, orientando ações que reforçam a resiliência do negócio e aceleram a descarbonização ao longo da cadeia de valor. O plano define as metas de redução de gases com efeito de estufa (GEE) e apresenta a estratégia rumo à neutralidade carbónica suportada por um conjunto de medidas nas operações próprias e também nas cadeias de abastecimento das nossas Companhias. Continuaremos a desenvolver o nosso Plano de Transição Climática de forma a robustecer a atuação ao nível das emissões de âmbito 3, nomeadamente no que respeita a nossa relação com os fornecedores.
Em 2024 as nossas metas de redução de GEE foram validadas pela Science Based Targets initiative (SBTi1), aprofundando o nosso compromisso com o combate às alterações climáticas. Essa validação assegura que os nossos objetivos estão alinhados com a ciência, tornando-nos a primeira empresa de retalho alimentar com sede em Portugal a ver as suas metas de curto prazo e de neutralidade carbónica aprovadas por aquela iniciativa.
Em 2025, alcançámos um marco no reconhecimento independente das nossas práticas de sustentabilidade: pela primeira vez, obtivemos a classificação A do CDP nas três dimensões que avalia – Combate às Alterações Climáticas, Gestão da Água enquanto Recurso Crítico e Gestão das Commodities Associadas ao Risco de Desflorestação (óleo de palma, madeira/papel, carne bovina e soja)2. Esta é a máxima pontuação possível e representa um nível de excelência em transparência no reporte, governação ambiental robusta e ação rumo à resiliência climática. Este resultado coloca o Grupo Jerónimo Martins no restrito grupo de 23 empresas a nível mundial reconhecidas com a classificação máxima pelo CDP e marca a primeira vez que um retalhista alimentar atinge este nível de distinção globalmente.
O nosso modelo de governo
A estratégia de descarbonização e gestão dos riscos e oportunidades climáticos é acompanhada e apoiada pelo Conselho de Administração, garantindo que os temas relacionados com o clima são integrados na estratégia corporativa ao longo de toda a cadeia de valor. A responsabilidade ao nível do Conselho de Administração recai sobre o Administrador-Delegado do Grupo, que é também presidente do Conselho de Administração e da Comissão de Governo da Sociedade e de Responsabilidade Corporativa (CGSRC). Esta Comissão, que inclui na sua composição membros do Conselho de Administração, supervisiona matérias de governação, ética, responsabilidade social e ambiente, entre as quais as relacionadas com as alterações climáticas. Mais informação sobre estes órgãos é detalhada nos pontos 21 e 29. do capítulo “Governo da Sociedade” e no “Governo e estratégia”.
Os temas relacionados com riscos e oportunidades climáticos são trabalhados nas reuniões regulares dos comités de sustentabilidade de cada uma das Companhias e na CGSRC, que suporta o Conselho de Administração avaliando e submetendo as propostas de orientação estratégica no domínio da responsabilidade corporativa. A mitigação e adaptação às alterações climáticas e as metas de redução das emissões GEE definidas no Plano de Transição Climática estão incluídas nessas propostas.
O Conselho de Administração também define a política e objetivos da gestão de risco do Grupo. Os riscos associados às alterações climáticas, incorporados nos riscos ambientais, estão integrados no processo de gestão multidisciplinar do Grupo. Os nossos mecanismos de gestão de risco, incluindo os riscos ambientais, estão detalhados nos pontos 52, 53. e 54. do capítulo “Governo da Sociedade”.
As questões relacionadas com o clima fazem parte integrante da estratégia de negócio. A implementação dos nossos compromissos climáticos é sustentada por investimentos contínuos, com ciclos de execução alinhados com os planos de negócios, designadamente:
a instalação de sistemas fotovoltaicos para autoconsumo de eletricidade renovável na Polónia, em Portugal e na Colômbia;
a utilização de instalações e equipamentos de refrigeração e congelação de elevada eficiência com recurso ao uso de gases de refrigeração naturais ou com baixo Potencial de Aquecimento Global (PAG);
a aquisição de eletricidade renovável certificada para alimentar as nossas operações em Portugal e na Polónia.
Exemplos recentes de integração dos temas relacionados com o clima nos mecanismos de governo incluem a aprovação das nossas metas de emissões líquidas zero e das metas de redução de curto e longo prazos (validadas pela SBTi em 2024), bem como a decisão de alocar à sua implementação um montante médio anual correspondente a cerca de 10% do CAPEX consolidado.
O cumprimento de objetivos relacionados com o clima e outros objetivos de responsabilidade corporativa faz parte do esquema de incentivos aos colaboradores em funções que influenciam a definição e/ou implementação dos compromissos e metas climáticas assumidos pela empresa. As formas como integramos o desempenho relacionado com a sustentabilidade no esquema de incentivos a colaboradores estão detalhadas em “Governo e estratégia” e no ponto 69 “Descrição da Política de Remuneração dos Órgãos de Administração e de Fiscalização” do capítulo “Governo da Sociedade”.
A nossa estratégia
Reconhecemos o impacte das nossas atividades e das desenvolvidas nas nossas cadeias de abastecimento nas emissões de GEE para a atmosfera. A nossa estratégia de mitigação e adaptação às alterações climáticas tem por objetivo reduzir os riscos físicos e de transição, através da diminuição sustentada daquelas emissões nas operações próprias e na nossa cadeia de abastecimento.
Alinhado com uma trajetória de redução de GEE que limita o aumento da temperatura média a 1,5ºC, o nosso plano apresenta medidas de intervenção nas operações próprias (centros de distribuição, lojas, unidades industriais e unidades agroalimentares), na logística, no envolvimento com os nossos fornecedores (especialmente de produtos alimentares) e no desenvolvimento de produtos com menores emissões de carbono associadas.
Para o efeito, estabelecemos metas e medidas como a transição para energias renováveis ou o aumento de eficiência dos nossos estabelecimentos, entre outras, que se encontram detalhadas nas secções 5.1. “Iniciativas para reduzir as emissões de GEE dos âmbitos 1 e 2” e 5.2. “Iniciativas para reduzir as emissões de GEE de âmbito 3” do nosso Plano de Transição Climática, “Divulgações nos termos do artigo 8.º do Regulamento (UE) 2020/852 (Regulamento Taxonomia)” e “Finanças Sustentáveis”. O progresso destas ações, bem como dos restantes objetivos de redução de GEE, encontra-se no subcapítulo “Compromissos de sustentabilidade”.
Atendendo à inevitabilidade de alguns efeitos das alterações climáticas, trabalhamos para aumentar a resiliência do negócio, promovendo medidas de adaptação nas operações próprias e na cadeia de abastecimento. Fazemos isto através da partilha de boas práticas e da identificação de origens ou produtos alternativos. Esta colaboração próxima com os nossos fornecedores também nos tem permitido integrar na nossa avaliação as ações de mitigação e adaptação já por eles implementadas para ingredientes com elevado risco climático.
A avaliação de risco também permite identificar, nas nossas operações, alavancas de descarbonização e aumentar a nossa capacidade de produção energética (como é o caso da geração de energia renovável para autoconsumo), bem como de desenvolvimento de produtos inovadores de baixo carbono que respondam às expetativas e necessidades dos nossos consumidores, como representado em baixo.
Iniciativa |
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Meta |
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Ações |
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Transição para gases refrigerantes naturais e com baixo Potencial de Aquecimento Global (PAG) |
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Utilizar unicamente gases refrigerantes naturais ou com baixo PAG em todas as lojas e centros de distribuição na Polónia e em Portugal até 2030 e na Colômbia até 2035 |
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Transição dos combustíveis fósseis |
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Aumentar progressivamente a eletrificação da frota de veículos ligeiros e a utilização de biocombustíveis |
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Transição para energias renováveis |
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Até 2030, 60% da eletricidade consumida ser proveniente de fontes renováveis |
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Aumento da eficiência energética dos nossos estabelecimentos |
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Reduzir, até 2026, o consumo de energia em 10% face a 2021 (por 1.000€ de vendas) |
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Gestão de riscos e oportunidades climáticas
Como retalhista alimentar também com atividades na área agroalimentar, dependemos de forma substancial de condições climáticas favoráveis, que podem impactar a nossa cadeia de abastecimento alimentar e não-alimentar. São exemplos as alterações na disponibilidade de água para a agricultura, a interrupção de processos logísticos devido a eventos climáticos extremos e, ao nível dos nossos estabelecimentos, o risco de inundação.
O desafio crescente que as alterações climáticas colocam às sociedades e às empresas, e a complexidade da avaliação dos riscos e oportunidades financeiros associados, levou à adoção, em 2020, das recomendações da Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD), agora integradas nas normas do International Sustainability Standards Board (ISSB), gerido pela International Financial Reporting Standards (IFRS).
Apesar do elevado grau de incerteza associado à avaliação do impacte dos riscos climáticos, o processo que implementámos engloba todas as fases da nossa cadeia de valor:
a montante (ex., o impacte da alteração dos padrões de precipitação nas cadeias globais de produção alimentar);
nas operações próprias (ex., o impacte no CapEx da substituição de sistemas de refrigeração);
a jusante (ex., a oportunidade de aumentar a confiança dos mercados de capitais na empresa através de uma gestão otimizada dos riscos e oportunidades financeiros relacionados com as alterações climáticas).
A avaliação de riscos e oportunidades climáticos de curto, médio e longo prazos abrange a cadeia de valor das Companhias do Grupo com faturação superior a 100 milhões de euros (representando 99,95% do nosso volume de negócios total) e envolve os fornecedores de Marca Própria e perecíveis.
Este processo, alinhado com a ISO 31000, inclui uma Matriz de Exposição ao Risco com quatro níveis calculados em função de duas dimensões: probabilidade e impacto. Este enquadramento metodológico segue os mesmos princípios, critérios de avaliação e ciclos de monitorização definidos no sistema global de Gestão de Risco do Grupo, sendo aqui descrito com maior detalhe em resposta aos requisitos específicos de reporte em matéria de riscos climáticos e ambientais.
Os riscos são classificados de acordo com cinco níveis de probabilidade de ocorrência e cinco níveis de impacto sobre quatro indicadores (vendas, EBITDA, segurança e reputação), tendo em conta a probabilidade, o impacto e a duração dos riscos climáticos. A probabilidade de ocorrência de qualquer um dos riscos identificados e o nível e gestão do respetivo impacto, incluindo o financeiro, são analisados no âmbito regular dos nossos procedimentos de avaliação de risco a curto, médio e longo prazos. A gestão pode incluir a mitigação (ex., redução do consumo de energia para reduzir a exposição ao aumento dos custos de energia induzido pela regulamentação), a transferência de riscos (ex., seguros contra danos causados por possíveis fenómenos meteorológicos extremos) e a maximização de oportunidades para investidores, de nicho ou tradicionais, que decidam aplicar capital com base na nossa estratégia e no nosso desempenho climático.
A revisão dos riscos é feita trimestralmente e, anualmente, é produzida uma nova matriz de risco global que enumera todos os riscos e medidas de gestão, incluindo as que se destinam a gerir os riscos relacionados com o clima. Dependendo da sua natureza, os riscos são avaliados a curto (1 a 3 anos), médio (3 a 10 anos) e longo (superior a 10 anos) prazos, de modo a captar totalmente os impactes relativos aos riscos físicos climáticos que se podem materializar num futuro mais distante. O curto prazo está alinhado com o ciclo de negócios das Companhias e é particularmente relevante para a avaliação de riscos e oportunidades de transição. O médio prazo permite analisar riscos e oportunidades com potencial de influenciar o desenvolvimento estratégico do Grupo e enquadra metas climáticas operacionais com horizonte até 2030, incluindo as metas de redução de emissões de GEE aprovadas pela Science Based Targets initiative. O longo prazo é utilizado para avaliar impactos potenciais nas operações e cadeia de valor, em particular riscos físicos crónicos que afetam ativos de longa duração, e apoia o alinhamento com metas climáticas de longo prazo.
Os riscos e oportunidades são considerados materiais quando excedem uma proporção do EBITDA definida internamente considerando o risco inerente3, sendo, nesse caso, identificados, avaliados e geridos ao nível corporativo. Para os riscos ambientais, os indicadores qualitativos Reputação, Criticidade Operacional e Dependência são também determinantes para a classificação. Os riscos e oportunidades relacionados com as alterações climáticas que se situam abaixo do limiar de materialidade a nível empresarial do Grupo são identificados e geridos a nível das unidades de negócio/operacionais. A identificação inclui o acompanhamento da regulamentação específica de cada país (ex., impostos sobre o carbono na Polónia, Portugal e Colômbia) e a avaliação da vulnerabilidade das instalações a fenómenos meteorológicos extremos (ex., mapeamento do risco de inundação de lojas e centros de distribuição).
Em 2025, a avaliação e gestão dos riscos e oportunidades teve como objetivos:
atualizar as metodologias de quantificação financeira dos riscos climáticos físicos e de transição na cadeia de valor do Grupo;
aprofundar o conhecimento sobre a pegada de carbono dos principais fornecedores das Companhias, promovendo a partilha de informação e a identificação de oportunidades de redução das emissões de GEE;
melhorar a avaliação de riscos específicos para alguns ingredientes – nomeadamente os que são incluídos em produtos de Marca Própria e perecíveis – durante a sua produção e processamento.
Estes mecanismos estão detalhados nos pontos 52, 53 subponto “Riscos ambientais” e 54. do capítulo “Governo da Sociedade”.
Identificação de riscos e oportunidades
A identificação de riscos climáticos é baseada em cenários quantitativos usando projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Agência Internacional da Energia e de outras bases de dados como a da FAO4 (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). Por forma a melhorar o processo de avaliação de riscos climáticos e dar resposta aos requisitos da Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa (CSRD – Corporate Sustainability Reporting Directive), a nossa avaliação considera os dados mais recentes divulgados pelo IPCC.
Nesta análise, incluímos o acompanhamento da regulamentação específica de cada país (ex., impostos sobre o carbono em Portugal, na Polónia e na Colômbia), uma avaliação pormenorizada da vulnerabilidade das instalações a fenómenos meteorológicos extremos (ex., mapeamento do risco de inundação das lojas e dos centros de distribuição nos países onde temos operações), projeções dos mercados de energia (ex., evolução da procura e dos preços de eletricidade na Eslováquia, Chéquia e Marrocos) e uma análise das tendências de mercado, nomeadamente as preferências dos consumidores (ex., preferência por produtos locais, escolha de produtos de baixo carbono ou produtos alinhados com uma alimentação flexitariana). Para a medição dos impactos é considerado o exercício de dupla materialidade descrito na “Gestão de impactos, riscos e oportunidades e análise de dupla materialidade”.
Os riscos e oportunidades financeiros associados às alterações climáticas podem ser classificados em dois tipos:
físicos (agudos e crónicos), como o aumento dos custos de aquisição ou perturbações nas cadeias de abastecimento alimentar devido à alteração dos padrões climáticos;
de transição (incluem riscos políticos e regulatórios, de mercado, tecnológicos e reputacionais), como o aumento dos custos de conformidade com as restrições regulamentares relativas à utilização de gases com elevado potencial de aquecimento global (PAG) em equipamentos de refrigeração e arrefecimento.
Em 2025, concluímos a primeira atualização completa da nossa análise de cenários climáticos, realizada pela primeira vez em 2020. Apesar das revisões anuais que fazemos desde então, a atualização de 2025 permitiu uma avaliação qualitativa e quantitativa em três horizontes temporais: curto prazo (2030), médio prazo (2040) e longo prazo (2050). Foi ainda revista a metodologia de cálculo das medidas de mitigação e adaptação implementadas nas operações próprias e na cadeia de abastecimento, melhorando a quantificação do risco inerente e residual5.
A análise baseou-se em três cenários, que refletem diferentes trajetórias de evolução das políticas climáticas e dos impactos físicos das alterações climáticas:
Cenário “Net Zero 2050” – Pressupõe uma transição rápida e eficaz para uma economia de baixo carbono, em linha com os objetivos do Acordo de Paris. Permite avaliar a resiliência da nossa estratégia de negócio num contexto de forte ação climática. Este cenário destacou os riscos de transição, nomeadamente os associados aos mercados energéticos específicos de cada país, e os riscos tecnológicos, como a substituição antecipada de equipamentos de refrigeração com elevado PAG.
Cenário de transição adiada – Representa um cenário de aquecimento moderado, em que as políticas climáticas têm sucesso parcial na redução das emissões. Este cenário permite avaliar a resiliência da estratégia empresarial num contexto de evolução gradual, mas não totalmente eficaz, das políticas climáticas.
Cenário de políticas atuais – Assume a manutenção das políticas climáticas atuais, sem reforço significativo. Reflete um futuro com riscos físicos elevados e riscos de transição reduzidos, permitindo avaliar a resiliência da estratégia empresarial num mundo em que os impactos físicos das alterações climáticas são mais severos. Este cenário destacou os riscos físicos, com especial enfoque na exposição das nossas operações e das cadeias de abastecimento a riscos crónicos (ex., alterações nos padrões de precipitação e impacto na produtividade agrícola) e agudos (ex., ondas de calor que afetam o funcionamento dos sistemas de refrigeração nas lojas).
A avaliação dos riscos físicos foi realizada com base nas projeções dos modelos climáticos do 6.º Relatório de Avaliação do IPCC, utilizando três cenários:
cenário de desenvolvimento sustentável com aquecimento limitado (SSP1-2.6);
cenário intermédio com mitigação moderada (SSP2-4.5);
cenário de desenvolvimento intensivo baseado em combustíveis fósseis (SSP5-8.5).
Já a avaliação dos riscos de transição baseou-se em três projeções dos Cenários NGFS6 2024 para Bancos Centrais e Supervisores:
Net Zero 2050 (1,5°C);
Transição Adiada;
Políticas Atuais.
A avaliação que concluímos em 2025 utilizou dados específicos das operações próprias e das cadeias de abastecimento das nossas Companhias, incluindo o uso de coordenadas geoespaciais dos nossos estabelecimentos e dados ao nível regional para as origens e locais de processamento dos ingredientes:
Operações próprias – Foram avaliados todos os estabelecimentos das Companhias (lojas alimentares e especializadas, centros de distribuição, cozinhas centrais e unidades industriais, nas cerca de 6.400 localizações na Polónia, em Portugal e na Colômbia) e uma avaliação de alto nível para Chéquia e Eslováquia. Foram analisadas projeções de variáveis climáticas críticas (ex., graus-dia de aquecimento regional) e preços de energia em cada país, bem como o perfil dos equipamentos críticos (ex., vulnerabilidade dos sistemas de refrigeração das lojas). O impacto financeiro potencial foi expresso como valor climático em risco: investimento adicional (CapEx) para a substituição antecipada de equipamentos; custos operacionais adicionais (OpEx) com energia e manutenção; perda de receita devido ao encerramento temporário de lojas. Devido à crescente pressão sobre os recursos hídricos, e dada a elevada dependência da nossa área de produção agroalimentar, reavaliámos o nível de stress hídrico associado às localizações dos estabelecimentos das nossas Companhias, com especial foco nas explorações da JMA.
Cadeia de abastecimento (origem e processamento dos ingredientes) – Foi realizada uma avaliação do portefólio alimentar das nossas insígnias na Polónia, em Portugal e na Colômbia (incluindo Marcas Próprias e de fornecedores, representando cerca de 80% das vendas), com base numa amostra representativa de 50 artigos por insígnia e numa análise detalhada de 22 dos seus ingredientes. A cada ingrediente foi atribuída uma pontuação de risco, combinando a probabilidade de ocorrência de eventos climáticos nos países de origem/processamento (ex., variações mensais de temperatura e precipitação) com a sensibilidade específica do produto (ex., intervalo ótimo de temperatura e consumo de água para o crescimento de culturas ou animais, período crítico e tolerância). Os resultados foram extrapolados para grupos de produtos semelhantes. O impacto financeiro potencial foi expresso através de um valor climático de risco: valor de vendas dos grupos de produtos com os dois níveis de risco mais elevados.
Os principais riscos e oportunidades identificados para os nossos negócios estão relacionados com a origem dos ingredientes utilizados e com a exposição a riscos climáticos físicos, como fenómenos extremos de curto prazo, caracterizados pelo aumento da frequência e severidade (ex., ondas de calor, incêndios florestais ou inundações), e os riscos climáticos crónicos, caracterizados por alterações de longo prazo nos padrões climáticos, como o aumento da temperatura média, a alteração dos padrões de precipitação e a subida do nível médio do mar. Foram também avaliados os riscos e oportunidades associados à transição para uma economia de baixo carbono que, entre os riscos relativos à transição energética, incluem, por exemplo, o aumento dos custos energéticos relacionados com o cumprimento das metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.
Como retalhista alimentar, apresentamos um portefólio muito variado de produtos e temos uma rede logística madura e eficiente, o que garante a continuidade da oferta nas nossas lojas de produtos similares ou alternativos em caso de disrupção pontual de abastecimento. O aumento de produção de alguns bens alimentares em regiões onde as alterações climáticas têm possibilitado aumentos de produtividade e o desenvolvimento de produtos inovadores e alternativos são as principais oportunidades que as Companhias têm explorado ao longo dos últimos anos. Um exemplo é o aumento de produção de fruta e legumes na Polónia.
Da nossa avaliação, resulta que os riscos físicos e de transição inerentes (ou seja, sem considerar medidas de mitigação) nas operações próprias não foram identificados como materiais. No que se refere ao risco de calor extremo sobre os equipamentos de refrigeração nas nossas operações – nas quais observámos um aumento do impacto financeiro, ainda que não material – para os horizontes de médio e longo prazos, avaliámos a depreciação acelerada desses equipamentos devido à redução da sua vida útil e ao aumento potencial das despesas operacionais com refrigeração, resultante da maior necessidade de arrefecimento. O risco de transição associado aos mercados energéticos (i.e., custo de energia) apresenta um risco financeiro moderado, não material, para o médio e longo prazos, nos cenários “Net Zero 2050” e “Transição adiada”.
Nas operações próprias, a transição dos sistemas de refrigeração para sistemas com gases refrigerantes de baixo PAG apresenta um impacto financeiro moderado no curto e médio prazos, sendo a Colômbia o país que representa o maior desafio, já que a rede de fornecimento e manutenção deste tipo de tecnologia encontra-se ainda em desenvolvimento.
Na nossa cadeia de abastecimento, os riscos físicos e de transição classificados como materiais foram o risco de temperaturas extremas, as horas de frio7 e a alteração dos padrões de precipitação, com particular impacto na produção primária. No caso das temperaturas extremas, regista-se uma tendência de redução do impacto do risco de frio extremo a longo prazo.
O expectável aumento de intensidade e frequência do calor extremo (dias com temperaturas acima de 35ºC) terá impacto na produtividade das culturas e na agropecuária já a partir de 2030, com potencial disrupção pontual no abastecimento de determinados produtos. No processamento, é expectável que o calor extremo influencie diretamente a eficiência dos processos dependentes das cadeias de frio, com impactos negativos no consumo de energia, no tempo de vida dos sistemas e nas condições de operação, e efeitos ao nível da qualidade dos alimentos e/ou elevação do risco de propagação de micro-organismos (ex., bactérias e fungos). De acordo com os diferentes cenários de transição energética, o aumento do consumo de energia apresenta um risco financeiro material para todos os horizontes temporais e cenários climáticos analisados.
Relacionado com o aumento gradual da temperatura, a diminuição do número de horas de frio acumuladas provoca alterações no ciclo de produção, nomeadamente nas fases de floração e formação dos frutos. As culturas mais afetadas são aquelas que dependem de um elevado número de horas de frio para completar a dormência e garantir a frutificação adequada.
A alteração dos padrões de precipitação, sentida quer pelo aumento da intensidade e frequência de inundações e de secas (dependendo da região do globo), pode resultar numa diminuição da produtividade de determinadas culturas ou na perda de produtos, afetando diretamente a segurança alimentar a partir de 2030. Este impacto é já evidente em culturas como a do cacau: mais de 60% da produção mundial concentra-se na África Ocidental, onde a sucessão de episódios de precipitação extrema e secas severas tem favorecido a propagação de doenças (ex., black pod), conduzindo à perda de árvores, à redução das colheitas e ao aumento dos custos ao longo da cadeia de valor.
No que se refere ao risco reputacional, este está relacionado principalmente com as expectativas dos stakeholders sobre a redução das emissões de carbono, a preservação da biodiversidade e o combate à desflorestação. Estas são também preocupações transversais à nossa estratégia de Responsabilidade Corporativa, e que se traduzem na definição de planos de ação com objetivos definidos, bem como na nossa participação em coligações como a Science Based Targets Initiative (SBTi) e a Forest Positive Coalition of Action do The Consumer Goods Forum.
Apesar dos riscos identificados, consideramos que a implementação de medidas de mitigação e adaptação por parte dos setores agrícola e industrial, como os identificados na tabela abaixo, permitirá uma gestão atempada e equilibrada desses riscos. Ao mesmo tempo, alguns dos riscos identificados podem também apresentar oportunidades em determinadas regiões do mundo. Um exemplo é o do aumento da temperatura média, que poderá favorecer o crescimento da produção alimentar, especialmente se acompanhado pela implementação de medidas de mitigação e adaptação por parte da indústria agroalimentar.
Categoria |
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Oportunidades |
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Impactos |
|---|---|---|---|---|
Eficiência energética |
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Redução de custos em operações e infraestruturas através de uma melhor gestão energética, incluindo a modernização de equipamentos (ex., sistemas de refrigeração eficientes, iluminação LED) e a redução do consumo em lojas e centros de distribuição |
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Energia renovável |
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Substituição de fontes convencionais de energia por fontes de energia renovável (ex., instalação de painéis fotovoltaicos para autoconsumo) |
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Infraestruturas |
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Investimentos em infraestruturas resistentes a fenómenos climáticos extremos (ex., sistemas de frio adaptados para ondas de calor extremo, prevenindo interrupções e garantindo autonomia operacional) |
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Produtos |
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Diversificação e desenvolvimento do portefólio de produtos para incluir produtos alternativos de baixo carbono, variedades mais resilientes (ex., culturas resistentes a secas para reduzir disrupções no abastecimento) e identificação de origens alternativas |
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Cadeia de abastecimento |
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Envolvimento de fornecedores na descarbonização da cadeia de abastecimento (ex., colaboração para adoção de práticas de baixo carbono na produção primária e processamento) |
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Mercado |
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Diversificação dos instrumentos de financiamento (ex., empréstimos verdes) com critérios ligados à sustentabilidade, para apoiar investimentos em energias renováveis, cadeias de abastecimento resilientes e desenvolvimento de produtos de baixo carbono no retalho |
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Acreditamos que a nossa influência na adoção de boas práticas deve refletir-se nas nossas próprias operações. É por isso que elaborámos um Plano de Gestão de Água para as atividades agrícolas e industriais da JMA, que, pela sua natureza apresentam consumos de água significativos quando comparados com as nossas atividades de distribuição. Esse plano define medidas para aumentar a resiliência das atividades durante períodos de seca severa, para melhorar a monitorização dos consumos e para aumentar a eficiência hídrica dos processos produtivos.
Reportamos ainda os riscos e oportunidades climáticos, de forma detalhada e pública, nas nossas respostas ao CDP.
Relativamente às oportunidades de negócio na nossa cadeia de abastecimento, continuamos a apoiar e estimular o investimento dos nossos fornecedores na produção de energia renovável para autoconsumo, em particular para processos intensivos de energia (ex., processamento de matérias-primas como a torra do grão de café ou a refinação de açúcar), e na produção de matérias-primas, área na qual destacamos a crescente utilização de combustíveis de baixo carbono em máquinas agrícolas e a valorização de resíduos para a produção desses mesmos combustíveis. Estes investimentos dos nossos fornecedores em tecnologias de baixo carbono são fundamentais para a redução das emissões indiretas associadas às nossas compras de bens e serviços. A aposta em novas variedades, o investimento em práticas e tecnologias que tornam a produção mais resiliente às alterações climáticas e a diversificação dos países de origem são oportunidades identificadas pelos nossos fornecedores.
País das nossas operações |
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Fase da cadeia de valor |
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Oportunidade |
|---|---|---|---|---|
Portugal |
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Produção primária |
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Produção e comercialização de variedades melhoradas de fruta e vegetais mais resilientes às alterações climáticas |
Portugal |
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Produção primária |
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Produção em estufas ou recintos cobertos que asseguram a produção fora de época e permitem alcançar novos mercados |
Portugal |
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Produção primária |
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Desenvolvimento de fórmulas de rações de baixo carbono para produção de carne e peixe |
Portugal |
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Produção primária |
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Aumento da fertilidade e rendimento dos solos com a adoção de práticas de agricultura regenerativa |
Polónia |
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Produção primária |
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Desenvolvimento de produtos de baixo carbono baseados em proteína vegetal para mercados com metas de redução de emissões |
Polónia |
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Processamento |
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Redução de custos energéticos através do investimento em sistemas de cogeração e energia fotovoltaica para o processamento de leite |
Portugal |
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Logística |
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Redução da exposição à variação dos preços dos combustíveis através da eletrificação e utilização de combustíveis renováveis (ex., bicombustível) na frota de pesados e ligeiros |
Métricas, objetivos e evolução
No âmbito da nossa gestão de riscos e oportunidades climáticas e do nosso Plano de Transição Climática, definimos metas de curto, médio e longo prazos que podem ser consultadas na secção 4. “Os nossos objetivos” no Plano de Transição Climática e no “Compromissos de sustentabilidade”.
Em 2026, temos como objetivo continuar a trabalhar na avaliação dos riscos e oportunidades financeiros associados às alterações climáticas e reforçar a colaboração com a cadeia de abastecimento para:
envolver os fornecedores na estratégia de descarbonização das Companhias e identificar iniciativas de transição para uma economia de baixo carbono;
avaliar a maturidade da pegada de carbono dos nossos fornecedores para melhorar o cálculo das emissões associadas à compra, uso e fim de vida de produtos das nossas Companhias;
alargar o número de produtos de Marca Própria e perecíveis sujeitos ao processo de identificação e avaliação de riscos e oportunidades climáticas através da integração de novos ingredientes e origens;
aumentar a precisão do cálculo do risco residual através da recolha de informação sobre medidas de mitigação e adaptação identificadas na nossa cadeia de abastecimento;
mapear e quantificar oportunidades de negócio associadas ao desenvolvimento de novos produtos e identificar origens alternativas ou potenciais aumentos de produção de algumas culturas em regiões com condições climáticas favoráveis.
1 Para saber mais, consultar https://sciencebasedtargets.org/.
2 As nossas respostas ao CDP estão disponíveis no nosso website.
3 Risco inerente refere-se ao nível de risco sem considerar estratégias de resposta a um determinado risco climático (físico ou de transição).
4 Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO).
5 O risco inerente corresponde ao nível de risco existente antes da aplicação de quaisquer medidas de mitigação ou adaptação. O risco residual reflete o risco que permanece após a implementação dessas medidas, como iniciativas de eficiência energética.
6 Network for Greening the Financial System (Rede para a Sustentabilidade do Sistema Financeiro).
7 Horas de frio referem-se ao número de horas em que a temperatura se mantém abaixo de um determinado limite de temperatura, necessário para a quebra da dormência de certas plantas.