Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a principal causa da destruição de florestas tropicais é a expansão das atividades agrícolas. A desflorestação e a conversão do uso do solo continuam a ser os fatores que mais contribuem para a perda de áreas florestais e de biodiversidade.
Enquanto retalhistas alimentares, reconhecemos que grande parte das nossas cadeias de abastecimento depende de matérias-primas com origem agrícola, direta ou indiretamente ligadas às florestas. A proteção dos ecossistemas terrestres com Alto Valor de Conservação (AVC) contribui para o sequestro de carbono, bem como para regular o clima.
Por estes motivos, desde 2019 que fazemos parte da Forest Positive Coalition of Action (FPCoA), iniciativa do The Consumer Goods Forum, com o objetivo de reforçar a gestão responsável das matérias‑primas mais associadas à desflorestação. Este compromisso abrange os produtos das nossas Marcas Próprias e os artigos perecíveis que utilizam óleo de palma, papel e madeira, soja ou carne bovina na sua composição. A coligação atua como uma plataforma de mobilização para que as empresas implementem medidas coordenadas e individuais que visem eliminar a desflorestação e a conversão de ecossistemas nas cadeias de abastecimento destas quatro commodities. Paralelamente, esta coligação promove a adoção de práticas de gestão sustentável, conservação e recuperação das florestas, garantindo que estes esforços são alinhados com o respeito pelos direitos humanos.
Compromisso com o combate à desflorestação distinguido em 2025
Em 2025, atingimos um importante marco na avaliação e reconhecimento independentes das boas práticas de sustentabilidade e de cidadania corporativa. Fomos distinguidos pelo CDP (Disclosure Insight Action) com a classificação máxima (A) na gestão das commodities associadas ao risco de desflorestação (programa Forests), nomeadamente óleo de palma, soja, carne bovina e papel/madeira.
É a primeira vez a nível global que um retalhista alimentar multinacional alcança este nível de distinção, o que atesta a robustez e a consistência dos nossos compromissos e ações nesta matéria.
Embora tenhamos assumido o compromisso de garantir que, até ao final de 2025, o óleo de palma, a soja, o papel e a madeira, e a carne bovina presentes nos produtos das nossas Marcas Próprias e perecíveis fossem livres de desflorestação e de conversão de ecossistemas (DCF – Deforestation and Conversion Free, na sigla inglesa), constatamos que, apesar dos esforços que temos vindo a desenvolver com os nossos fornecedores, ainda não foi possível atingir integralmente esta meta.
Nesse sentido, estamos a alinhar os próximos passos com a FPCoA, reconhecendo que o cumprimento integral dos objetivos DCF exige um percurso contínuo e estruturado, assente na rastreabilidade, na monitorização, no sourcing responsável e no apoio aos produtores – pilares essenciais para a evolução pós 2025.
Em paralelo, seguimos a orientação da Acountability Framework initiative (AFi)1, uma iniciativa colaborativa que junta organizações ambientais e sociais para promover cadeias de abastecimento éticas e livres de desflorestação, que reforça que, mesmo quando as metas propostas não são plenamente atingidas, a prioridade deve ser acelerar o progresso através de melhorias na rastreabilidade, no envolvimento com fornecedores e nos investimentos em territórios críticos – ações que temos desenvolvido continuamente.
Ao contrário de sectores com cadeias de abastecimento mais simples e relativamente concentradas, a nossa operação, em linha com o praticado no setor do retalho, tem propensão para depender de cadeias longas, fragmentadas e de múltiplos níveis, principalmente nos casos de produtos não-alimentares e de alimentos processados. Nestas cadeias de abastecimento complexas, como são os casos da soja utilizada na ração animal (ex., alimentação dada a uma galinha poedeira que produz ovos que, por sua vez, são utilizados para confecionar um produto alimentar à venda nas nossas lojas) ou dos derivativos de óleo de palma, grande parte das commodities surge incorporada indiretamente, através de ingredientes transformados – que muitas vezes são um ingrediente dentro de um ingrediente (ex., óleo de palma numa margarina utilizada para confecionar um produto de padaria) – ou de subprodutos cuja rastreabilidade até à origem é complexa.
Adicionalmente, nos casos do óleo de palma e da soja, a indisponibilidade no mercado de volumes com certificação física (“Identity Preserved” e “Segregated”) ou de certificação no caso da carne bovina, não tem permitido mitigar a distância das nossas operações à produção destes ingredientes. Esta realidade cria uma diferença estrutural na capacidade de assegurar a conformidade total com critérios DCF ao mesmo ritmo que indústrias com ligações mais diretas à produção primária.
Apesar destes desafios, continuaremos a mapear a presença de ingredientes associados à desflorestação nos nossos produtos de Marca Própria e perecíveis, recolhendo informação junto dos fornecedores quanto à origem e certificação de sustentabilidade, bem como sobre as suas respetivas políticas de combate à desflorestação. Não obstante, reconhecemos que a plena verificação do estatuto DCF – sobretudo em matérias‑primas presentes em cadeias longas, com múltiplas transformações intermédias – requer um esforço conjunto do sector, maior transparência a montante e o desenvolvimento de soluções tecnológicas e normativas que tornem possível alcançar este objetivo de forma robusta, verificável, eficaz e eficiente.
Cadeias de abastecimento diretas e complexas
Enquanto retalhistas alimentares, as nossas cadeias de abastecimento variam em função do tipo de produto, origem das matérias-primas e do número de intervenientes envolvidos. De um modo geral, as cadeias de abastecimento podem ser classificadas como diretas ou complexas.
As cadeias de abastecimento diretas caracterizam-se por uma estrutura relativamente simples e por um menor número de intermediários na cadeia de valor. As matérias-primas são, por norma, adquiridas diretamente a produtores, transformadores ou fornecedores de primeiro nível (Tier 1). Como o fluxo de matérias-primas envolve menos etapas, a rastreabilidade é mais simples e a cadeia de abastecimento pode, com maior facilidade, ser monitorizada até à exploração agrícola ou à unidade de produção.
Em contraste, as cadeias de abastecimento complexas envolvem múltiplos níveis e intermediários, incluindo comerciantes, agregadores, transformadores, importadores, fabricantes e/ou detentores de marcas. Devido ao envolvimento de muitos intervenientes, as cadeias de abastecimento complexas são inerentemente mais estruturadas. A rastreabilidade é mais difícil, especialmente no que respeita a atividades a montante, como a alteração do uso do solo, a colheita ou a produção de rações. A informação sobre a origem das matérias-primas pode tornar-se mais incompleta ou perder-se à medida que os produtos percorrem a cadeia de valor.
No que respeita às nossas cadeias de abastecimento diretas, para cada uma das commodities materiais associadas à desflorestação consideramos os seguintes pressupostos:
Óleo de palma: produtos que contêm óleo de palma bruto ou refinado e óleo de palmiste como ingrediente.
Soja: produtos que contêm uma percentagem de soja como ingrediente igual ou superior a 5%. Categorizando os produtos de acordo com a Soy Measurement Ladder do CGF, incluem-se:
Tier 1: soja e seus derivados adquiridos diretamente (por exemplo, bebidas de soja, molhos de soja, óleo de soja, edamame), cujos produtos contêm mais de 95% de soja;
Uma parte do Tier 5: soja ou seus derivados que possam estar presentes na cadeia de abastecimento, incluindo lecitina em chocolate, óleo de soja em margarina, bem como subprodutos de soja em cosméticos e produtos de cuidados pessoais em que a soja represente entre 5% e 95% da composição total do produto.
Madeira: todos os produtos que contêm madeira como ingrediente.
Carne de bovino: produtos de contêm uma percentagem de carne de bovino igual ou superior a 5%.
Já as cadeias complexas podem ser categorizadas da seguinte forma:
Óleo de palma: produtos que contêm derivados de óleo de palma ou outras frações como ingrediente.
Soja: produtos que contêm proteína animal como ingrediente proveniente de animais alimentados com soja e produtos que contêm uma percentagem de soja como ingrediente inferior a 5%. Categorizando os produtos de acordo com a Soy Measurement Ladder do CGF, incluem-se:
Tier 2: soja utilizada na alimentação de animais como bovinos, suínos, frangos, peixes de aquacultura e outros animais; produtos de carne e peixe frescos;
Tier 3: soja utilizada na alimentação de galinhas poedeiras e vacas leiteiras, e outros animais produtores de leite, para a produção de ovos e produtos lácteos (por exemplo, iogurtes e batidos), em que mais de 95% do produto seja constituído por ovos ou laticínios;
Tier 4a: soja utilizada na alimentação de animais cuja carne é incorporada em produtos alimentares transformados (como refeições prontas, salsichas, etc.), em que essa carne ou peixe represente menos de 95% do produto final;
Tier 4b: soja utilizada na alimentação de animais cujos derivados são incorporados em produtos alimentares (como bolos, smoothies, gelados, etc.) e para os quais os ovos e laticínios representem menos de 95% do produto total;
Uma parte do Tier 5: soja ou seus derivados que possam estar presentes na cadeia de abastecimento, incluindo lecitina em chocolate, óleo de soja em margarina, bem como subprodutos de soja em cosméticos e produtos de higiene pessoal em que a soja represente menos de 5% da composição total do produto.
Madeira: embalagens com fibras virgens de papel (primárias, secundárias e terciárias) que utilizamos para acondicionar os produtos vendidos nas nossas lojas.
Carne de bovino: produtos que contêm uma percentagem de carne de bovino superior a 5%.
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Quantidade total (toneladas) |
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|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
Consumo das principais commodities agrícolas com risco de desflorestação na Marca Própria e perecíveis |
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2025 |
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2024 |
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Δ 2025/2024 |
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Óleo de palma |
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92.473 |
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77.667 |
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19,1% |
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Soja |
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511.370 |
|
513.486 |
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-0,4% |
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Soja (direta) |
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7.985 |
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21.061 |
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-62,1% |
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Soja (indireta)1 |
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503.385 |
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492.425 |
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2,2% |
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Papel e madeira |
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234.120 |
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212.152 |
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10,4% |
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Papel e madeira (produtos)2 |
|
185.111 |
|
170.751 |
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8,4% |
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Papel e madeira (embalagens)2 |
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49.009 |
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41.401 |
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18,4% |
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Carne bovina |
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40.885 |
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40.337 |
|
1,4% |
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Quantidade total (toneladas) |
|---|---|---|
Cadeias de abastecimento diretas e complexas por commodity |
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2025 |
Óleo de palma |
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92.473 |
Cadeia direta |
|
81.323 |
Cadeia complexa |
|
11.150 |
Soja |
|
511.370 |
Cadeia direta |
|
5.972 |
Cadeia complexa |
|
505.398 |
Papel e madeira |
|
234.120 |
Cadeia direta |
|
185.111 |
Cadeia complexa |
|
49.009 |
Carne bovina |
|
40.885 |
Cadeia direta |
|
39.347 |
Cadeia complexa |
|
1.548 |
Em função das diferenças estruturais entre cadeias diretas e cadeias complexas, os resultados da implementação de compromissos DCF podem divergir significativamente. Nas cadeias diretas, a proximidade aos fornecedores e a maior visibilidade operacional permitem uma evolução mais rápida e consistente rumo ao DCF, sustentada por níveis mais elevados de rastreabilidade e controlo. Já nas cadeias complexas – como é particularmente evidente no caso da soja, caracterizada por múltiplos intermediários, origens dispersas e menor capacidade de verificação a montante – os resultados tendem a ser mais variáveis e difíceis de consolidar.
Status DCF
No gráfico abaixo são esquematizadas as percentagens DCF por cadeia de valor, tornando‑se evidente as diferenças de exposição ao risco entre cadeias diretas e complexas em cada commodity. Esta leitura permite-nos compreender e priorizar diferentes estratégias de rastreabilidade, verificação e mitigação ajustadas à complexidade específica de cada cadeia de abastecimento.
Óleo de palma
O aumento em 19,1% do consumo do óleo de palma nos produtos das nossas Marcas Próprias é explicado pela alteração da composição dos óleos alimentares (mais palma e menos soja), sobretudo na Ara, na qual cerca de 90% do volume total de óleo de palma é utilizado em óleos vegetais de cozinha, um produto particularmente relevante para os consumidores na Colômbia.
Em 2025, 100% do óleo de palma utilizado nas Marcas Próprias e nos perecíveis na Polónia e em Portugal detinha certificação RSPO (Roundtable on Sustainable Palm Oil), sendo a grande maioria certificada de acordo com o modelo “Mass Balance” e “Segregated”2.
Esquemas de certificação RSPO na Polónia e Portugal (2025)
Embora a Colômbia seja um dos maiores produtores mundiais de óleo de palma, a proporção da produção deste ingrediente que é certificada pela RSPO continua a ser reduzida. Esta limitação, combinada com o nosso compromisso de, sempre que possível, incentivar as compras locais nos países em que operamos, cria um contexto particularmente desafiante para aumentarmos a certificação RSPO do óleo de palma produzido na Colômbia e que incorporamos nos nossos produtos. Para responder a este desafio, desde 2021 que a Ara faz parte do Acuerdo de Voluntades para la Deforestación Cero en la Cadena de Aceite de Palma en Colombia, uma iniciativa governamental que procura assegurar que o óleo de palma utilizado no país não contribui para a desflorestação. O acordo reúne diversas organizações da sociedade civil – como a RSPO, a Proforest, a Tropical Forest Alliance e a WWF – e promove ações coletivas que passam pela melhoria da rastreabilidade até ao nível da exploração agrícola, garantindo que a produção local não está associada a conversão de ecossistemas. O Acuerdo de Voluntades visa também assegurar que o óleo de palma importado pela Colômbia possui uma certificação de sustentabilidade, como a RSPO. Este enquadramento tem permitido fortalecer gradualmente os mecanismos de monitorização e verificação da desflorestação associada a este ingrediente na Colômbia.
Em 2025, 90% (mais 15 p.p. do que em 2024) do óleo de palma utilizado nos produtos de Marca Própria e perecíveis da Ara teve origem na Colômbia, do qual cerca de 41% tinha certificação RSPO (menos 25 p.p. do que em 2024). Em 2025, conseguimos rastrear a origem de 94% (menos 1 p.p. do que em 2024) do óleo de palma da Colômbia utilizado em produtos de Marca Própria e perecíveis até à zona da exploração agrícola onde foi produzido. Com base nesta informação, confirmámos que o óleo de palma provinha dos Departamentos de Norte de Santander, Santander, Bolívar, Cesar, Magdalena, Meta e Casanare, localizados nas quatro áreas produtoras do país (Zona Central, Zona Oriental, Zona Sudoeste e Zona Norte) e de 18 fábricas de processamento a operar na Colômbia. No entanto, apenas 0,75%3 da desflorestação identificada pelas entidades públicas colombianas estava associada ao óleo de palma. A combinação dos níveis de rastreabilidade, da crescente certificação RSPO e do baixo índice de desflorestação associado ao óleo de palma na Colômbia valida a nossa estratégia DCF para esta commodity neste país.
Relativamente ao consumo de óleo de palma utilizado nos produtos de Marca Própria e perecíveis da Ara que não teve origem na Colômbia, iremos continuar a trabalhar em conjunto com os fornecedores para aumentar os níveis de certificação RSPO do óleo de palma importado, com o compromisso de assegurar que não está associado à desflorestação ou à conversão de ecossistemas de AVC.
Assumindo que:
para os países considerados como tendo risco de desflorestação e conversão, os esquemas de certificações físicas até ao nível “Segregated” são consideradas DCF;
6% do nosso consumo com origem Colômbia possui eventual risco de desflorestação (assumimos uma abordagem conservadora, dado não ter sido possível mapear 100% do consumo até ao nível da exploração agrícola);
aplicámos a desflorestação associada ao óleo de palma (0,75%) identificada pelos organismos públicos colombianos a 94% do nosso consumo (a parte que foi possível rastrear até à área da exploração agrícola onde foi produzido).
Podemos presumir que 68% (62.885 toneladas) do nosso consumo total de óleo de palma em 2025 estava livre de desflorestação e conversão de ecossistemas de AVC – 6% (4.067 toneladas) provenientes de esquemas de certificação física DCF e 94% (58.817 toneladas) controlados através de rastreabilidade e verificação DCF.
Ao desagregarmos o nosso consumo total – 81.323 toneladas em abastecimento direto e 11.150 toneladas em abastecimento complexo –, verificamos que:
nas cadeias diretas, 73% do volume (58.963 toneladas) cumpre os critérios DCF;
nas cadeias de abastecimento complexas, 35% (3.921 toneladas) estão alinhados com os nossos pressupostos DCF.
No caso das cadeias de abastecimento diretas, o facto de 73% do volume cumprir critérios DCF reflete, em grande medida, a utilização maioritária do óleo de palma como ingrediente direto em óleos alimentares na Ara.
Já nas cadeias de abastecimento complexas, os volumes considerados DCF são sobretudo condicionados pela maior fragmentação da cadeia de valor e consequentes limitações de rastreabilidade a montante, bem como pela dificuldade em assegurar a disponibilidade de óleo de palma certificado RSPO em modelo segregado para derivados, amplamente utilizados como ingredientes em produtos transformados.
No entanto, se considerarmos os volumes de óleo de palma com certificação RSPO até ao nível “Mass Balance”, verifica-se que 80.842 toneladas (cerca de 87% do nosso consumo total em 2025) estariam livres de desflorestação e conversão de ecossistemas de Alto Valor de Conservação.
A inclusão do modelo de certificação “Mass Balance” no cálculo DCF, é uma medida que valoriza o investimento e o empenho dos nossos fornecedores de Marcas Próprias e perecíveis, uma vez que exige deles um conjunto adicional de esforços, tanto financeiros como operacionais. Estes esforços refletem os seus compromissos para reduzir o risco de desflorestação e conversão, bem como o respeito pelos direitos humanos e pela preservação da biodiversidade, associados à cadeia de abastecimento do óleo de palma. Ao reconhecer estes contributos, reforçamos também a progressão para práticas de produção mais responsáveis e alinhadas com padrões de sustentabilidade internacionalmente reconhecidos.
Status DCF do consumo de óleo de palma (2025)
Soja
Devido ao seu volume global de produção e utilização, a soja assume um papel central entre as commodities agrícolas. No contexto dos produtos das nossas Marcas Próprias e perecíveis, a soja surge em duas vertentes distintas: é utilizada como ingrediente direto em produtos alimentares (como bebidas, óleos e outros derivados de soja) e está presente de forma indireta (é um elemento fundamental das rações para alimentar animais responsáveis pela produção de ovos, leite, queijo, carne e pescado de aquacultura).
Em 2025, apenas 2% do consumo total correspondeu a soja utilizada como ingrediente (soja direta – Tier 1 e Tier 54), nomeadamente em óleos ou bebidas vegetais. A diminuição em 2 p.p. do consumo de soja direta resultou de reformulações na composição dos óleos alimentares vegetais contendo soja nos produtos de Marca Própria na Ara.
No que concerne à soja indireta, representa cerca de 98% do consumo total de soja associado aos nossos produtos de Marca Própria e perecíveis (Tiers 2 a 4b4). A grande maioria da soja presente na nossa cadeia de abastecimento (91%) está associada aos perecíveis especializados nas categorias de carne e pescado de aquacultura (Tier 24) e a perecíveis não-especializados, como os ovos ou os laticínios (Tier 34). Os restantes 7% estão associados a alimentos processados que contêm na sua composição produtos oriundos de animais alimentados com soja, como refeições prontas e salsichas.
Pegada de soja por tier (2025)
Pegada de soja por ingrediente (2025)
Cerca de 65% da soja estava associada à alimentação de aves (mais 4 p.p. que em 2024), 13% à alimentação de suínos (menos 5 p.p. face a 2024) e 10% à produção de ovos (aproximadamente igual ao peso em 2024).
A nossa estratégia para a soja assenta em duas linhas de atuação complementares. A primeira, é o reforço dos mecanismos de rastreabilidade até ao nível da produção agrícola, o que reduz a incerteza associada à origem e aumenta a transparência da cadeia de valor. A segunda, e sempre que a soja seja proveniente de países com maior risco de desflorestação – como Argentina, Brasil e Paraguai –, trabalharmos em conjunto com os nossos fornecedores para que o abastecimento seja assente em práticas sustentáveis.
Em 2025, conseguimos reduzir a soja de origem desconhecida para 3% do total (menos 2 p.p. do que em 2024), o que quer dizer que reforçámos a rastreabilidade de 97% da soja pelo menos até ao país de produção. Este progresso reflete o compromisso e o esforço conjunto dos nossos fornecedores em aumentar a rastreabilidade das suas próprias cadeias de abastecimento. Este trabalho com os nossos fornecedores será continuado em 2026, com foco especial na carne de aves, de porco e nos ovos, devido à sua relevância destes produtos na nossa cadeia de abastecimento.
Cerca de 72% (mais 8 p.p. do que em 2024) da soja utilizada nos produtos de Marca Própria e perecíveis, principalmente no que diz respeito à soja indireta, foi proveniente de países com risco de desflorestação5. Dessa percentagem, 16% (menos 1 p.p. do que em 2024) tinha certificação de sustentabilidade6, como RTRS e ProTerra.
O mapeamento da soja indireta continua a ser um desafio para os retalhistas alimentares, principalmente ao nível da identificação da parcela de produção. Sendo a soja frequentemente incorporada nas rações utilizadas em fases muito anteriores das cadeias de produção animal, os nossos fornecedores diretos não compram soja, mas sim produtos de origem animal cuja cadeia de valor integra este fluxo de forma distante e pouco visível. Esta complexidade reforça a necessidade de abordagens colaborativas para identificar a origem dos ingredientes das rações e aumentar a transparência no sector.
Presumimos que, em 2025, 32% (menos 12 p.p. do que em 2024) do nosso consumo total de soja não esteve associado à desflorestação ou a conversão de ecossistemas de Alto Valor de Conservação. Este valor (equivalente a 164.185 toneladas) resulta da combinação de 25% de origens de risco negligenciável e 8% abrangidos por esquemas de certificação física (até ao nível de Mass Balance). Os resultados refletem o padrão global da cadeia de valor da soja – principalmente da que é utilizada para a produção de ração animal –, que tem origem sobretudo em países da América do Sul e apresenta uma disponibilidade limitada de matéria-prima certificada.
Analisando a cadeia de abastecimento da soja direta, 4.880 toneladas foram consideradas DCF (82% do total), devido ao seu enquadramento em regiões de risco negligenciável. Já no fluxo da cadeia complexa, 159.305 toneladas (32%) atingiram o estatuto DCF, refletindo a complexidade acrescida associada aos produtos de origem animal. Este valor resulta da combinação de 24% provenientes de origens de risco negligenciável e 8% abrangidos por esquemas de certificação física (até ao nível de Mass Balance).
Status DCF do consumo de soja (2025)
Para a soja proveniente de países com risco acrescido, os créditos RTRS adquiridos pelos nossos fornecedores representaram mais de 5% do consumo (20.253 toneladas). Em 2026, em colaboração com os nossos fornecedores de Marca Própria e perecíveis, iremos procurar converter parte destes créditos em esquemas de certificação física, com o objetivo de aumentar progressivamente a proporção de soja classificada como livre de desflorestação e de conversão de ecossistemas.
Papel e madeira
Em 2025, o consumo de fibras virgens de papel e madeira nos nossos produtos e embalagens de Marca Própria e perecíveis aumentou 10% face a 2024, o que se explica por duas razões: a tendência global de substituir embalagens de plástico por alternativas em papel e a crescente procura por fibras recicladas de papel e madeira, o que reduz a sua disponibilidade no mercado.
Para diminuir o risco de desflorestação associado aos nossos produtos e embalagens de Marca Própria e perecíveis, implementamos uma estratégia assente em três eixos:
incorporação progressiva de fibras recicladas;
monitorização da origem das fibras virgens pelo menos até ao nível nacional;
utilização de fibras virgens com certificação de sustentabilidade FSC®, ou PEFC.
Neste contexto, os nossos dois principais objetivos são:
até ao final de 2026, garantir que 95% das fibras virgens utilizadas nos nossos produtos e 80% das fibras virgens utilizadas nas nossas embalagens têm uma certificação de sustentabilidade como FSC® ou PEFC;
garantir que, até ao final de 2030, 100% das fibras virgens utilizadas nos nossos produtos e embalagens têm uma certificação de sustentabilidade como FSC®, ou PEFC.
A utilização de fibras de papel e de madeira em produtos e embalagens de Marca Própria e perecíveis nos três principais países onde operamos (Polónia, Portugal e Colômbia) é avaliada anualmente. Assim, calculámos o consumo DCF destas fibras assumindo que:
os países identificados pela FPCoA como sendo livres de desflorestação e conversão são considerados como de risco negligenciável;
nos países identificados como tendo um elevado risco de fontes controversas, os esquemas de certificações de sustentabilidade FSC® ou PEFC são considerados DCF.
Em relação às fibras virgens, cerca de 92% (mais 2 p.p. do que em 2024) detinham certificação de sustentabilidade (FSC®, PEFC ou SFI), em linha com o nosso objetivo de assegurar 100% de certificação para produtos e embalagens de Marca Própria até 2030.
Ainda em 2025, conseguimos rastrear a origem, pelo menos até ao nível do país, de cerca de 95% (mais 5 p.p. do que em 2024) das fibras virgens utilizadas. Este exercício permitiu verificar que cerca de 11% (menos 5 p.p. do quem 2024) do nosso consumo de fibras virgens de papel e madeira têm origem em países com risco de desflorestação não negligenciável ou desconhecida. Procurámos mitigar este risco através da incorporação de matéria-prima com certificação FSC®, PEFC ou SFI, que representou 76% do total das fibras virgens utilizadas que tiveram origem em países com risco de desflorestação não negligenciável ou desconhecida.
Status DCF do consumo de papel e madeira (2025)
Com base nesta informação, podemos presumir que 95% (222.578 toneladas) do total de fibras virgens de papel e madeira utilizadas em produtos e embalagens de Marca Própria e perecíveis são livres de desflorestação e conversão de ecossistemas de AVC.
Produtos de papel e madeira
No caso das fibras virgens de papel e madeira presentes em produtos de Marca Própria (185.111 toneladas), verificou-se um aumento de 8% do consumo face ao registado em 2024, devido ao lançamento de novos produtos e ao crescimento das vendas, em particular na Biedronka e na Ara.
Cerca de 94% das nossas fibras virgens utilizadas em produtos de Marca Própria tinham certificação FSC® ou PEFC. Conseguimos rastrear a totalidade das fibras virgens até ao nível do país de origem, o que nos permitiu identificar que cerca de 7% das fibras provêm de países com risco de desflorestação não negligenciável7. No entanto, dessa percentagem, 81% provêm de florestas geridas de forma responsável, uma vez que apresentam certificação FSC®, ou PEFC.
Através desta análise verificamos que 96% (177.539 toneladas) do total de fibras virgens de papel e madeira utilizadas em produtos são livres de desflorestação e conversão de ecossistemas de AVC. Destes, 97% (172.612 toneladas) são provenientes de países com risco negligenciável de desflorestação e conversão, e 3% (4.927 toneladas) possuem uma certificação física considerada DCF.
Embalagens de papel e madeira
No caso do papel e madeira utilizados em embalagens, cerca de 79% (menos 1 p.p. que em 2024) das fibras são recicladas. Nos restantes 21%, que correspondem a fibras virgens (49.009 toneladas), identificámos que cerca de 83% (menos 7 p.p. que em 2024) das fibras virgens utilizadas nas nossas embalagens possuíam uma certificação FSC® ou PEFC. Adicionalmente, verificámos que os restantes 27% (menos 31 p.p. do que em 2024), são provenientes de países com risco de desflorestação não negligenciável ou desconhecida. Destas matérias-primas virgens com origem de risco ou desconhecida, 71% têm certificação FSC®, PEFC ou SFI.
Assumindo os pressupostos previamente mencionados, podemos presumir que 45.040 toneladas (92%) cumprem o critério DCF, das quais 35.852 toneladas (80%) são provenientes de países com risco negligenciável de desflorestação e conversão e as restantes 9.187 toneladas (20%) possuem uma certificação física considerada DCF.
Enquanto retalhista alimentar, consideramos esta cadeia de abastecimento particularmente complexa, dado que não adquirimos diretamente as matérias‑primas utilizadas na produção de embalagens. Ainda assim, o resultado DCF evidencia os esforços feitos em conjunto com os nossos fornecedores para garantir uma cada vez maior rastreabilidade desta matéria-prima.
Carne bovina
Em 2025, o nosso consumo total de carne bovina nos produtos de Marcas Próprias e perecíveis foi de 40.895 toneladas. Tal como tinha acontecido no ano anterior, conseguimos rastrear toda a carne bovina pelo menos até ao país de origem, o que permitiu aferir que cerca de 4% do nosso consumo foi proveniente de países onde o risco de desflorestação associado à produção de carne bovina é não negligenciável8.
Sabendo que os países de risco negligenciável são considerados como livres de desflorestação e conversão de ecossistemas de AVC, podemos presumir que 96% (39.105 toneladas) do nosso consumo de carne bovina é DCF.
Status DCF do consumo de carne bovina (2025)
Se considerarmos o nosso consumo total em abastecimento direto (39.347 toneladas) e complexo (1.548 toneladas), podemos verificar que:
nas cadeias de abastecimento diretas, 95% (37.566 toneladas) cumpre os critérios DCF;
nas cadeias de abastecimento complexas, 99% (1.539 toneladas) dos volumes estão alinhados com os nossos pressupostos DCF.
Paisagens sustentáveis no Mato Grosso (Brasil)
Com o objetivo de apoiar a preservação e a regeneração de ecossistemas, em 2025, demos continuidade aos nossos investimentos em iniciativas multi-stakeholder, alinhados com os dez princípios estabelecidos pela FPCoA. Uma das iniciativas mais relevantes é o projeto no Mato Grosso, o estado brasileiro com maior produção agrícola, no qual participamos em colaboração com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazónia (IPAM), a Nestlé e a Sainsbury’s.
Esta iniciativa visa criar as condições e implementar processos de governação capazes de transformar as paisagens de produção de soja e pecuária, assegurando a conservação e restauração de florestas e ecossistemas, a proteção dos direitos humanos dos povos indígenas e comunidades tradicionais locais, e a melhoria da produção e dos meios de subsistência dos pequenos agricultores.
Em 2025, o projeto registou progressos significativos em vários domínios. No pilar da produção, seis propriedades (abrangendo 18.000 ha) foram acompanhadas na preparação para a obtenção da certificação RTRS e três propriedades (14.000 ha) aderiram ao programa de agricultura regenerativa Reg.IA iniciando a monitorização de carbono, solo e produtividade. Na pecuária, avançaram as ações para assegurar a rastreabilidade individual de 2.000 animais, a certificação em bem‑estar animal e a elaboração de planos de recuperação de pastagens.
Na dimensão da conservação, foram mapeadas 20 famílias com potencial para integrar o programa CONSERV Smallholders, e concluído o levantamento de cerca de 400 atores relevantes para estruturar programas de Pagamento por Serviços Ambientais (PES) nos municípios envolvidos. Foram ainda preparados e submetidos 26 registos do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e revistos outros 21, reforçando a regularização ambiental de pequenos produtores.
A restauração ecológica avançou com a implementação de 25 hectares de sistemas agroflorestais (SAFs) em Tangará da Serra, beneficiando 25 novas famílias com assistência técnica, matérias-primas e distribuição de mudas certificadas. A cadeia regional de produção de mudas foi fortalecida com o apoio a três viveiros: construção do novo viveiro municipal de Sapezal, reestruturação do viveiro da EMPAER em Tangará da Serra e regularização do Viveiro Mendes, em Acorizal.
No âmbito da inclusão, foi iniciado o diagnóstico fundiário dos territórios e mapeados 92 coletivos de agricultura familiar e comunidades indígenas (associações, cooperativas e sindicatos), criando bases para ações futuras de fortalecimento socioeconómico e organizacional.
O progresso alcançado até ao momento realça o sucesso das estratégias colaborativas de governação participativa, com a inovação técnica e o envolvimento da comunidade.
Cacau e café
À medida que aprofundamos a compreensão dos nossos impactos e dependências em relação às quatro commodities mais materiais para o Grupo, temos vindo a alargar essa análise a outros ingredientes que, embora menos materiais, são relevantes no combate à desflorestação – como o cacau e o café. Seguindo iniciativas de referência, como os SBTi FLAG e o CDP, passamos a integrar neste reporte, os nossos progressos referentes a estas duas matérias-primas.
Em 2025, foi possível assegurar a rastreabilidade de 80% (7.874 toneladas) do cacau incorporado nos produtos de Marcas Próprias e perecíveis até ao nível do país de origem. Costa do Marfim, Gana, Camarões, Colômbia, Nigéria e Equador foram as origens mais representativas, em linha com a estrutura da produção global deste ingrediente. Cerca de 14% do nosso consumo de cacau era certificado Rainforest Alliance, garantindo uma produção mais sustentável e contribuindo para a proteção das pessoas, das florestas e da biodiversidade. Importa salientar que, enquanto retalhista alimentar, a rastreabilidade desta cadeia de abastecimento apresenta desafios complexos, dado que o cacau é maioritariamente utilizado como ingrediente em produtos transformados, implicando múltiplos níveis intermédios na cadeia de abastecimento.
No caso do café, 98% (9.353 toneladas) do volume presente em produtos de Marcas Próprias e perecíveis foi igualmente rastreado até ao nível do país de origem. As origens mais representativas foram Vietname, Brasil, Equador, Colômbia e Indonésia. Em conjunto, estes países representam mais de 90% dos volumes rastreados de café.
Estamos comprometidos em reforçar o reporte do cacau e do café e, progressivamente, integrar os mesmos requisitos de combate à desflorestação já aplicados às quatro commodities prioritárias (óleo de palma, soja, papel/madeira e carne bovina).
1 Mais informações sobre posicionamento da AFi podem ser consultadas aqui.
2 Informação sobre estes sistemas de certificação está disponível no website da RSPO.
3 Dados revelados na análise do nível de desflorestação associada à produção de óleo de palma, realizada em 2023 pelo IDEAM – Instituto de Hidrologia Meterorología y Estudios Ambientales e pelo Ministério do Ambiente Colombiano.
4 São contabilizados os cinco tiers de quantificação de soja na cadeia de valor, de acordo com a metodologia “Calculation guidelines for the measurement of embedded soy usage in consumer goods businesses” do The Consumer Goods Forum.
5 De acordo com a FPCoA, a lista de países considerados como tendo risco não negligenciável de desflorestação associado à produção agrícola de soja são a Argentina, o Brasil e o Paraguai.
6 De acordo com a FPCoA, a lista de recomendação de esquemas de certificação DCF e Padrões de Sustentabilidade Voluntária (VSS). Informações mais detalhadas disponíveis aqui: Soy DCF Methodology
7 Os países considerados como tendo risco de desflorestação não negligenciável associado à produção agrícola de papel e madeira correspondem aos definidos nas guidelines do CGF (Argentina, Indonésia, Malásia, EUA e Vietname).
8 Os países considerados como tendo risco de desflorestação não negligenciável associados à produção de carne bovina correspondem aos definidos nas guidelines do CGF.